Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Era noite. Era domingo. Era uma noite estranha de domingo. Se bem que todas as noites de domingo são estranhas, afinal, elas emocionalmente antecipam o início de mais uma semana de martírio. Antes de te esquecer, todas as semanas eram um martírio para mim.

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Naquela noite de domingo, anos e anos de memórias se foram. Anos e anos de angustiantes noites de domingo que antecipavam mais uma semana de tristeza se foram.

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Passei a olhar para as noites de domingo com mais doçura. Repentinamente elas se transformaram em noites belas, contagiantes, alentadoras, inspiradoras. Noites de domingo se transformaram em manhãs ensolaradas de sábado; ou melhor, em quintas à noite, com aquele gostinho único de só-falta-mais-um-dia-para-o-fim-de-semana.

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Era uma noite de domingo e, mais do que isso, era uma noite de domingo chuvosa. Não vou dizer que a chuva apareceu na hora certa, para lavar minha alma; muitos assim já o disseram. A chuva veio apenas para tornar este dia ainda mais inesquecível.

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Troquei a lembrança de uma vida a dois pela lembrança de um dia qualquer, por mais que uma noite de domingo não possa ser chamada de uma noite qualquer, pelo simples fato de pertencer muito mais à segunda que antecipa do que ao domingo que conclui.

Nunca me esquecerei do dia em que te esqueci. Porque foi justo neste dia que passei a lembrar de mim.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Generalizações

Por mais que tenha vontade, não posso dizer que toda generalização é burra. Se assim o fizesse, estaria também generalizando.

Generalizar não é um erro. É uma forma de simplificar as coisas, de aproximar a realidade do nosso entendimento, muitas vezes ocultando partes importantíssimas da história. Por falar em história, é incrível como fui enganado pela minha professora do colegial. Para facilitar nossa compreensão, ela fazia generalizações das mais diversas, sempre naquele esquema estanque de causa e consequência, como se todos os eventos fossem facilmente explicados. Em suma, ela mentia.

Muitas vezes temos preguiça de pensar e utilizamos a generalização para traduzir aquilo que sem ela seria impossível explicar em pouca palavras. Quando falamos que o Federer é o Pelé do tênis fazemos uma generalização. Com essa afirmação um leigo, uma pessoa que nunca jogou tênis, saberá que o Federer é o melhor jogador de todos os tempos. Mas isso faz dele um Pelé? Não estamos exagerando quando fazemos essa comparação?

Tendo a desconfiar quando ouço frases que começam com "todos", "tudo", "sempre" e "nunca". Só não digo que sempre desconfio, porque generalizar não é muito a minha praia.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Elevador

Ela não imaginava encontrar alguém assim que a porta do elevador se abrisse. Assim deduzo, já que deu pra perceber que foi com muito esforço que ela conseguiu fechar a boca que cantarolava alguma música. Mais um ou dois segundos e eu ainda pegaria um restinho daquele refrão.

Música interrompida, olhos arregalados, ela entrou. Um boa noite meio cantado, talvez ainda no ritmo da canção que segundos antes ecoava pelo hall de serviço. Talvez ela estivesse pensando que raios eu fazia ali, no elevador de serviço, àquela hora da noite. Talvez ela estivesse pensando se essa crase do “àquela hora” estava no lugar certo. Não, duvido. Metalinguagem não é coisa de alguém que chega cansada da faculdade.

Aliás, nem sei se ela vinha mesmo da faculdade. Outra dedução, influenciada pelo caderno com bichinhos de pelúcia na capa e pelos post its coloridos que saíam dele (confesso que por um momento pensei em colocar post its em itálico, assim como algumas revistas anti-EUA fazem; meu bom senso não permitiu). Só sei que o caderno, se utilizado na faculdade ou em algum outro tipo de curso, teve muita utilidade naquele momento. Pois foi com ele que ela, timidamente, cobriu o pouco do seio que ainda não tinha sido coberto pelo bolerinho que utilizava, logo que encostou na parede acolchoada do elevador de serviço. Sim, esse elevador de serviço conta com paredes acolchoadas. Coisa da síndica antiga, aquela velha que implicava com todos os cachorros.

Com o caderno sobre os peitos (imaginava ela que para eles olharia eu, creio) e as costas eretas de quem faz pilates duas vezes por semana, como mais uma vez deduzo, confortavelmente coladas à parede acolchoada, ela finalmente relaxou. Depois do susto de encontrar alguém ali, depois de engolir a música e depois do boa noite cantado, ela finalmente relaxou. Olhava para baixo, como todas as pessoas adultas fazem em elevador, seja ele de casa, do trabalho ou do clube. Nem mesmo esperou minha resposta ao seu boa noite cantado e logo abaixou os olhos, que nem tive tempo de ver se eram verdes ou castanhos que se valeram do efeito daquela luz amarela para parecerem verdes por instantes.

Não queria papo nem prosa nem nada. Não queria nem ao menos saber se aqueles breves segundos virariam uma crônica, insisto em deduzir. Não queria nem ao menos saber meu nome. Meu andar ela já sabia, pois a luzinha vermelha estava acesa no sexto quando ela olhou para a botoneira (foda-se, inventei essa palavra). Se reparou ou não, mais uma vez não tenho como saber. Posso deduzir, é verdade. Ou inventar, como fiz com todo o resto deste texto.

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

O diplomata

Sabia sim todas as capitais do mundo. Suriname, Bangladesh e até Ossétia do Sul. Aliás, era um dos poucos que sabiam da existência da Ossétia do Sul.

Falava 5 línguas (todas eram latinas, mas isso não vem ao caso) com perfeição e quase sem sotaque.

Era bem relacionado.

Suas noções de direito internacional eram tantas que não poderiam ser chamadas de noções.

Sabia quando usar a palavra "bastante" no plural. E usava. Bastantes vezes.

Entendia o significado daqueles siglas que a globo colava no placar dos jogos. CAM era Clube Atlético Mineiro, por exemplo.

Fazia textos em terceira pessoa sobre sua própria pessoa, mesmo sem ter a poesia de um Pessoa.

Dormia religiosamente todas os dias com a musiquinha de abertura do Vídeo Show, o programa mais inútil da TV brasileira, depois do Arena Sportv.

Fumava mil cigarros. Bebia Coca-Cola.

E tinha um sonho. Dois, na verdade. O primeiro era não enlouquecer antes dos 50, coisa que ele achava cada vez mais difícil, sobretudo agora, que passava dias inteiros sem tirar o pijama. O segundo, e mais importante, era parar de começar frases com a letra "e".

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Afilhada

Foi só depois de descobrir que ela tinha uma afilhada que me apaixonei. Na verdade, minto. Já estava apaixonado, mesmo antes dessa nova informação. O fato é que saber disso me fez querer mostrar, dizer, escancarar.

Mulheres com afilhadas deixam de ser simples mulheres. Se não viram heroínas, como as mães, se transformam em musas. Elas ganham a doçura que muita vezes apenas as enfermeiras têm. Meigas, carinhosas, amorosas: elas ganham novos adjetivos, sem perder os antigos.

Ela, que já era assim antes de se tornar madrinha, ficou ainda melhor depois. Quer dizer, se antes de saber disso eu já a tinha como única, depois eu passei a considerá-la como perfeita. Ou quase.

A não ser por fotos, nunca tinha visto a tal afilhada. Não sabia como era sua voz, nem sua altura, nem se tinha dificuldade com matemática ou se tinha uma amiguinha chamada Bruna. Sabia sim, que como toda afilhada, ela tinha entre 5 e 8 anos e morava numa cidade distante, do interior. Afinal, não vejo a menor graça em ter uma afilhada que mora na cidade grande.

Isso pouco importava. Sua simples existência é que emprestava todo o charme a sua madrinha, lembrando que a crase antes de pronome possessivo é opcional. Aliás, bom ter falado em posse: se era ela que tinha uma afilhada, era eu que tinha a sorte de ter a madrinha.

Filha, irmã, neta, prima, sobrinha. Ela era tudo isso, mas nem havia toda essa necessidade. Ser madrinha era o que importava.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Eu?

Era para ser uma simples entrevista de emprego. Ok, simples é exagero. Afinal, no meio dessa crise, está longe de ser simples arranjar uma entrevista de emprego.

O que eu quis dizer é que se tratava de um papo com o RH sobre minhas aptidões, meu passado, minhas habilidades e todas aquelas mentiras que os homens e as mulheres contam e que, se alguém se desse ao trabalho de checar, perceberia que aquela “experiência internacional”, na verdade era o mochilão que fiz quando estava em dúvida entre ser astronauta ou dentista.

Enfim.

Depois de repetir tudo aquilo que estava escrito no currículo que eu enviei por email (se ela pediu para mandar por email, por que não leu?), ela fez uma pergunta besta, como todas as outras anteriores. Quem eu era?

Foi aí que comecei a refletir. Pensei em dizer: sou publicitário, formado há 3 anos, tenho inglês fluente e blá e blá e blá blá. Me dei conta que isso era apenas o resumo do meu currículo, e não o resumo de quem eu era exatamente. Minha vida, felizmente, ultrapassava os limites de meu currículo.

Tá. Já sabia o que evitaria dizer. Faltava saber o que responder. Pensei nas frases que as pessoas usam no “about me” do orkut: pedaços de letras de música em inglês, citações de poetas ou pessoas mortas, mantras de autoajuda, piadinhas. Nada disso seria útil naquele momento. Pensei nas palavras de meu pai, quando comuniquei que largaria a faculdade para passar um tempo surfando: vagabundo! É, isso também não seria útil.

Pensei nos meus sonhos, nos de criança aos atuais, mas cheguei à conclusão que ali estava um retrato de quem eu queria ser, e não de quem eu era. E o abismo entre essas duas situações era considerável a ponto de ser chamado assim mesmo de abismo, sem exageros.

Pensei em mais coisas, em mais frases, em sentimentos, em fatos. Nada. A mulher do RH olhava com uma cara feia, esperando por uma resposta que pudesse se enquadrar no “padrão da empresa”.

Respondi então que eu era o reflexo de todas as coisas que já tinha vivido e sentido. Ela ficou confusa. E eu vi que aquele emprego não era pra mim.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Sempre elas

São sempre as mulheres que tomam a iniciativa. Sim, são sempre elas. São elas que nos notam primeiro, são elas que em apenas 5 minutos já sabem muito mais sobre nossa personalidade do que aquele amigo que conhecemos desde os tempos do primário no Pueri Domus. São elas que nos escolhem, antes mesmo que as tenhamos notado.

Até o nosso primeiro passo é dado por elas. Sem perceber, elas nos dominam com decotes, pernas, jogadas de cabelo, palavras e sombras de olho, mesmo que nós não façamos ideia do que seja uma sombra de olho. São as sutis insinuações que nos fazem “tomar coragem”, e não as doses cavalares de bebida que muitos de nós utilizamos com esse fim.

Elas iniciam o jogo, abrem os caminhos e os botões da calça e nos conduzem utilizando todas as suas armas. A maioria delas não é perceptível, principalmente, porque achamos que somos nós que estamos no comando. Afinal, somos nós que “chegamos” nelas. Nós que escolhemos quem atacaremos naquela noite ou madrugada. Nós que comandamos.

Engraçado descobrir que aquela menina que você estava cobiçando há tempos já tinha te notado muito antes de você ter dado pela existência dela. Aquele convite para jantar que você finalmente teve coragem de fazer era tão esperado por ela quanto por você. Ela só estava esperando você perguntar.

Nos tornamos marionetes e então nos damos conta do real significado daquela música do Leoni que diz que perto de uma mulher, garotos são só garotos. Vou além. Garotos são garotos, adultos são garotos, velhos são garotos. Por mais que estejamos cansados de saber disso, nunca admitimos. Continuamos vivendo como se o controle da situação fosse nosso. E elas continuam deixando que a gente acredite nisso.